Crônica de uma maratonista de primeira viagem

Por Fernanda Indelli

Nunca fui muito boa com as palavras. Depois de anos de análise, passeando por Freud, Lacan e Jung, me convenci de que sou uma pessoa calada, observadora e com a mente gorda. Você deve estar se perguntando o que uma coisa tem a ver com a outra. Te digo que nada, exceto pelo único e real motivo desta crônica: contar as histórias de uma maratonista de primeira viagem.

Fui uma criança gorda e desastrada. Vivia quebrando brinquedos, derramando suco e feijão na toalha de mesa do almoço e levando bronca da minha mãe. Tudo em vão. Continuo extremamente estabanada, porém não mais tão gorda. Aí entra a corrida na minha vida. Depois de passar infância, adolescência e início da idade adulta lutando contra a balança, decidi deixar o hábito de correr ter papel de ator principal na minha vida.

Há exatos 5 anos, em agosto de 2007, parti rumo à Rochester, cidadezinha do interior de Minnessota, Estados Unidos, para fazer um estágio em Patologia de Osso e Partes Moles, minha especialidade atual. Levei na mala, além de terninhos e scarpin, um tênis e roupas de malhar. Com planos de permanecer por lá durante 4 meses, jamais tive a pretenção de virar o ás da malhação. Então, pra que tênis, malhas de ginástica? Me punia por ter perdido tanto espaço na mala, que poderia voltar pro Brasil cheia de bolsas Louis Vuitton, sapatos Jimmy Choo e jeans da Diesel. Morei todo este período num quarto de hotel que cheirava mofo e pingava a torneira da única pia existente, esta utilizada para lavar o rosto, a louça e as famigeradas roupas de ginástica.

Lá conheci Dr. Antônio Geraldo Nascimento, meu mentor no estágio. Sujeito polêmico, apaixonado e apaixonante. O cara, além de me ensinar Patologia como ninguém tinha feito até então, me colocou pra correr. Iniciamos as atividades com caminhadas fortes (segundo ele, porque pra mim era corrida!) e seguimos com trotes, sempre exercitando nos tempos livres. Com ele conheci o meu primeiro progonoma melanótico (um tumor) e minha primeira desidratação. Quem era aquela pessoa que deixou isso acontecer comigo? Sob a tutela da minha mãezinha durante 17 anos (quando sai de casa para fazer faculdade), não havia uma lágrima ou gota de suor que não tivesse sido derramada e reposta com Pedyalite. O homem era um trator. AGN, sigla que o identificava na Mayo Clinic, me desafiava o tempo todo, no microscópio e nas pistas de corrida. Mas isso só aumentava a minha vontade de vencer, tanto no exercício profissional quanto na corrida. Acordava às 6 horas da manhã e me mandava pra esteira do hotel pra treinar, a fim de cumprir qualquer desafio.

Voltei para o Brasil e continuei a correr na orla de Icaraí, quintal lá de casa. Meus treinos eram solitários, o que só aumentava minha intimidade comigo mesma. Fazia umas duas sessões de terapia a cada volta na praia. A essa altura, Freud, Lacan e Jung estavam me maldizendo, loucos pra eu tropeçar e ficar uns 6 meses inválida.

Foi quando passei num concurso que vim pra Brasília (bem como quase todo mundo que vem pra cá). O Sudoeste virou meu acampamento base e logo logo descobri que ali também tinha um quintal legal, o Parque da Cidade. E pra lá ia realizar meus treinos nos fins de semana. Desconfiada, fui conhecendo o lugar aos poucos....pista de 4, 6 e 10 km, necessariamente nessa ordem. Sim, eu sou cheia de manias, e quem não é?
O parque foi ficando repetitivo e pequeno, então, comecei a pensar em novas possibilidades. Eixão, Sudoeste econômico....até que descobri que correr no Lago Sul me remetia à brisa do mar. Vocês devem estar rindo da minha cara, mas é verdade: era o que mais se aproximava disto. E ali comecei a fazer os meus longões, sempre eu comigo mesma. Pra ter uma idéia, eu já tinha corrido uma meia maratona em treinos sem, sequer, ter corrido uma prova desta! A vida toda fui exagerada, mas fazia aquilo por puro prazer.
Em outubro de 2011 fui correr uma prova de revezamento pela academia e descobri, na véspera, que minha dupla era o Merched. Mas quem era o Merched? Quem era essa pessoa de nome esquisito que eu jamais tinha visto na minha vida? Liguei pro tal fulano no sábado à noite, correndo todos os riscos, pra combinar a fatídica prova do dia seguinte. Quilômetros corridos, recebi o convite do meu parceiro para conhecer o clube de corrida que ele tinha começado a frequentar, um tal de EVOLUA.

De bobeira, na terça-feira à tardinha seguinte à prova, apareci no Parque da Cidade, local de treinos vespertinos da equipe. Fui recebida pelo treinador Éder Villanova já com um teste. Uhuuu! Comecei a gostar. Apesar de não ser uma pessoa competitiva, adoro desafios pessoais. Adoro me superar.
Fui conhecendo pessoas e estabelecendo novas metas, coisas comuns a quem é introduzido num clube de corrida. Aquilo tudo me lembrava o filme “Fight Club”, mas de uma maneira muito mais saudável. Acredito que nos aproximamos de pessoas com as quais temos afinidades. E isso não é uma questão de escolha, é uma questão de identidade. E, em se tratando de um clube de corrida, nos identificamos com as pessoas que tenham “pace” parecido com o nosso (para os sedentários e/ou leigos no assunto, pace é igual ao ritmo de corrida).

A história da minha primeira maratona começa com uma pessoa chamada Ricardo Luiz D´Almeida Barbato. Sujeito de nome nobre, meio afrescalhado. Comecei a correr com ele, quer dizer, ele começou a correr comigo na minha primeira prova de meia maratona. Na verdade, ele me resgatou no meio do caminho e me carregou até o último centímetro da corrida, incentivando e aturando minhas reclamações, pois eu sentia fortes dores no quadril. Foi paixão (pace-ão) à primeira vista!!! De lá pra cá, não nos separamos mais.
Em dezembro de 2011, num momento de deliciosa loucura, meu amigo Barbato me fez várias propostas indecentes ao mesmo tempo. Se você achou que tinha algum cunho sexual, enganou-se redondamente. Ele me propôs correr uma meia-maratona de montanha em Arraial do Cabo, a maratona do Rio e revezar com ele outra maratona de montanha, em Bombinhas. E eu, completamente insana, aceitei. Acordo selado com aperto de mão, abraço apertado e tudo mais. E com testemunhas. Ai, meu Deus! Aonde eu estava com a cabeça. Eu já sabia que tinha o tipo de comportamento um tanto quanto impulsivo, mas não achei que fosse tanto. Acreditava que tinha melhorado bastante com os anos de análise.

Minhas dores no quadril e alguns problemas pessoais do Barbato nos aproximaram ainda mais. Entre treinos e chopps, o tempo foi passando. Pouco antes do nosso primeiro compromisso firmado, a meia-maratona de montanha, era a hora da minha viagem dos sonhos para o Hawaii. Como de costume, arrumei minha mala (que, a propósito, era bem modesta para uma mulher) e zarpei rumo ao Pacífico. Fiquei 3 semanas sem treinar, só curtindo Maui, Oahu, Big Island e US Pacific Coast. Uma vez viajando sozinha, o momento era de pura introspecção. Ah, como eu adoro ficar sem celular...

Voltei pros treinos, mas parece que minha alma tinha ficado em Pipeline. Na semana seguinte ao meu retorno estava programado um treinão no Altiplano Leste, prévia da corrida de montanha. Fui achando que era tranquilo, que não tinha morro em Brasília. Quebrei a cara e quebrei mesmo. Não consegui terminar o percurso de 14 km e fiquei meio tensa. Porra! Na próxima semana eu faria uma meia-maratona de montanha e não conseguira correr alguns míseros quilômetros nos montinhos candangos. Fui pra Arraial do Cabo e deu tudo certo. Venci o Pontal do Atalaia e fui recompensada com belas vistas, as quais tornaram-se um bálsamo pra minha alma tão atormentada pela angústia de não ter como cumprir um objetivo estabelecido...

Quando voltamos da viagem ao litoral norte fluminense, ao reclamar com nosso treinador que estava sem a planilha de treinos para a maratona, ele me respondeu da seguinte maneira: você vai correr mesmo? Ah, não! Outro me desafiando! Outra vez a mesma história de 5 anos atrás! Alguns poderiam levar essa história pro lado ruim, mas eu, como gosto muito do Éder e de desafios, resolvi encarar como tal.

Como já disse uma vez para meu amigo Barbato, engatinhando no meu processo de auto-conhecimento, considero-me uma pessoa obstinada, mas não disciplinada. Detesto rotina, detesto mais ainda ordens. Mas se me proponho a fazer algo, não tenha dúvida que sairá bem feito. E muito bem feito. Devido ao meu comportamento deveras contraventor, em geral, meus objetivos levam um pouco mais de tempo para serem alcançados. E foi exatamente isso que me surpreendeu. Jamais me imaginei abrindo mão de tanta coisa e seguindo rigorosamente o que me mandam fazer. Esse foi meu grande desafio.

Confesso que contei com a valiosa ajuda do Barbato. Por vezes, queria sair, tomar umas e outras, curtir um rock & roll...e abortar o treino (ou chegar mais tarde). Mas ele, homem incansável, de conduta irrepreensível, não me deixava. E, de quebra, ainda escutava meus murmúrios nas longas manhãs de treino aos sábados e domingos.

Iniciei a lavagem cerebral maratonística com a impressão da planilha de treinos. Li tudo com extrema atenção e preguei a bicha na porta da geladeira. Aquelas duas folhas com milhares de números e quadrados, nomeados de segunda a domingo, eram mais importantes pra mim que as outras orientações antes ali expostas: adeus semente de chia, farinha de banana verde, óleo de coco. Apesar de adorar a minha nutricionista e xará, não conseguia tirar o foco da tal tabela. Os treinos semanais não causavam tanto impacto, mas no fim de semana....logo no fim de semana, a porca torcia o rabo. Progressões de quilômetros, culminando no último treino de 32 km. Mas isso eu conto no final.

Começamos nossos longões num sábado, correndo 22 km. Eu e Barbato saímos lá de casa, demos a volta no Sudoeste econômico, seguimos rumo ao encontro com o pessoal do clube de corrida, no parque da cidade, e voltamos para o Sudoeste. Nesse dia, a iniciante e inexperiente futura maratonista não tomou café direito, não levou água direito, não se alimentou durante o treino direito, e, consequentemente, não terminou direito. Dei uma quebrada e tive de caminhar uns 500 metros quase no final. Barbatinho me reergueu no último quilômetro e terminamos o que parecia interminável. Como troféu, um gatorade geladinho. Pra falar a verdade, eu preferia uma taça de champa, mas naquele dia começava o meu suposto período de abstinência. No domingo, era pra ser um trote solto de 60 minutos. Aproveitei o circuito Lótus e corri 10 km na ilustre e divertida companhia da Janaína (ou Janalinda, para os íntimos).

A planilha do fim de semana seguinte mandava correr 24 km. Sim, durante 2 meses mandaram em mim duas pessoas: a planilha e o Barbato. Decidimos que ficaria cansativo correr tudo aquilo no parque da cidade e optamos por fazer esse longão no Lago Sul, saindo do Pontão e indo em direção ao aeroporto. Subimos pelo embarque, tentando imaginar que aquilo fosse uma parte da Niemeyer. Após uma parada estratégica para ir ao banheiro, seguimos rumo a Base Aérea, sem, no entanto chegar até lá. Era só pra completar a quantidade de quilômetros necessária. Na volta, essa foi a vez do Barbatinho quebrar. O dia estava quente e seco, o que nos causou um desgaste imenso. Mas a já não tão inexperiente futura maratonista desta vez tomou café direito, levou água na camelback, gel de carboidrato e bananada. Entre caminhadas e trotes, continuamos nossa odisséia até completar os 24 km almejados. No dia seguinte, treino leve de 45 minutos.
O terceiro longão era de 26 km. Foi a primeira vez que nos separamos. Eu e Barbato não treinaríamos juntos nesse fim de semana. Inventei de ir a São Paulo, no aniversário do filho de um primo. Peguei o primeiro voo para a paulicéia desvairada no sábado de madrugada, às 5:30 h. Cheguei na casa da minha irmã Diana às sete e meia da manhã, disposta a tirá-la da inércia. Visita sem noção que sou, já fiz uma proposta logo de cara: pedalar no Ibirapuera. Sem pestanejar, a sedentária topou. Glória! Alugamos duas bikes por lá e demos umas voltas no parque. Depois dei uma corridinha rápida pra soltar as pernas.

Me programei para correr os milhares de quilômetros que a planilha mandava no domingo, em Brasília. E assim o fiz. Fui pro parque da cidade no final da tarde, a fim de realizar minha longa jornada de treinos do fim de semana. Comecei correndo na pista de 10 km (que não tem 10 km), seguida pela de 6 e 4 km, que também não tem 6 e 4 km, todas um pouco menos. E pra finalizar, fiz mais uma vez a pista de 6. Eu vi o Sol ir embora, a Lua dar o ar da graça, a chuva molhar....e só deu 25 km! Parei. Foi o manisfesto pela ausência do meu parceiro de corrida. Fui embora exausta, física e mentalmente. Durante esses treinos longos a gente pensa num monte de coisas. Coisa boa e coisa ruim.

O próximo longão seria de 28 km e, mais uma vez, eu inventei de viajar. Dessa vez fui a Vitória, pra mais um aniversário de filho de primo. Ou melhor, prima. Vi o Júlio César, filho da Mila, ao nascer, e o moleque já iria completar 2 anos. Sendo o primogênito de uma das primas que mais amo, era uma desfeita muito grande não comparecer à mais uma primavera do menino. E família é coisa preciosa, que não se brinca. Cheguei em Vitória na sexta-feira à noite e meus tios Amália e José Carlos, que moram em Vila Velha, me esperavam no aeroporto, juntamente com a Isadora, também filha de primo. Tio Zé seria a vítima que me acompanharia no longão da semana. Acordamos no sábado cedo e zarpamos pra nossa empreitada, ele de bike e eu nas canelas. Pegamos um pedaço da orla de Itaparica e Itapoã, mas esta era pequena pro que eu precisava fazer. Continuamos pela Rodovia do Sol, uma auto-estrada que conduz até Guarapari, passando pela Ponta da Fruta, saudosa praia que frequentei na minha infância. Com a metade do percurso completada, me sentia bem. A camelback estava abastecida e os carboidratos faziam o efeito desejado. Mas como diz o ditado“no pain, no gain”, a partir do quilômetro 20 minhas pernas começaram a dar sinal de vida. Aumentei o consumo de água e o tal do gel já me dava náuseas. Dessa vez não teve jeito: tive de caminhar uns 500 metros até chegar a orla da praia, quando a brisa deu um refresco para meu tão cansado corpo. Agora, minhas costas e ombros também doíam. Pedi ao meu tio que levasse a mochila, que já não tinha mais água. Pode não parecer, mas aquela geringonça pesa pra caramba. Com a umidade da região praiana, fui perdendo mais líquido pelo suor e, consequentemente, desidratando. Meu rendimento caiu bastante e, já sem água, apelei para os últimos ml de gatorade que existiam na garrafinha do tio. Santo tio, santo gatorade! Mas só deu pra molhar o bico. Ainda faltava cerca de um quilômetro e meio e eis que surge minha tia Amália com a Isadora erguendo uma garrafa de água mineral gelada. Era a minha medalha de finisher. Ou o oásis no deserto. Como queiram. Nessa hora você pode achar qualquer coisa. Eu achava mesmo é que ia morrer de tanto calor e cansaço. Mas acabei o treino. E como de costume, fiz minha prestação de contas ao Barbato. Mandei uma mensagem pra ele informando da missão cumprida. E comprida.... No domingo à tarde, já de volta a Brasília, trote leve de 45 minutos pelo Sudoeste econômico. Mais uma vez eu estava sozinha, pensando na vida, no que eu estava fazendo da minha vida.

O fim de semana seguinte guardava a Volta do Lago. Prova de revezamento de 100 km. Esse ano, mais uma vez num momento de ousadia, aceitei o convite da Chris de fazer a prova em quarteto. Eu, ela, o Farofa e o André. Nosso compromisso era no domingo e tirei o sábado pra descansar. Mas só um pouco, pois neste mesmo fim de semana, recebi a visita da minha mãe, da minha tia Amália e da minha irmã Diana. Fizemos aqueles passeios turísticos por Brasília e à noite dei uma de mestre cuca. Cozinhei um risoto de arroz negro com filé mignon suíno caramelado na geléia de pimenta vermelha. Precisava colocar carboidrato pra dentro.

A prova, pra variar, foi sensacional. Corri quatro trechos, totalizando 27,5 km. Bom treino pra quem quer correr uma maratona. Fiquei o dia inteiro por conta do evento, deixando minha família sob custódia da gaúcha mais querida que conheci nos últimos tempos. A Lusivon, ou melhor, a Letícia Luvison apareceu na minha vida como um anjo. A guria leva meu Leopoldo pra passear, dá comida na boca dele e ainda, de quebra, faz sala pra minha família sem fazer qualquer objeção. Ao final da jornada dominical, verde de fome como o incrível Hulk, passamos no Mc Donald´s e, monstruosamente, comi um CBO (chicken, bacon, onion) e uma batata frita grande, seguidos de um Ovomaltine grande do Bob´s e um pedaço de bolo de laranja que descolei lá em casa. Era hora de descansar.

Acordo na segunda-feira e mal consigo levantar da cama. Credo! O que aconteceu comigo? Minha segunda tentativa do dia, ir ao banheiro fazer xixi, foi frustrada pela limitação de movimentos. Eu precisava de um toalete adaptado. Vaso sanitário mais alto e alças para apoio seriam ideais naquele momento. Optei por colocar um sapato baixo para trabalhar e tomar bastante vitamina C, que dizem ser bom para depurar o ácido lático mais rápido. Como a vitamina C é hidrossolúvel, ou seja, sai na urina, não há muito problema em fazer superdosagem. Mas o que eu menos queria era agachar pra ir ao banheiro...se pudesse, andava com uma comadre hospitalar a tira-colo.

A semana passou, juntamente com as dores. O próximo, último e mais longo desafio era correr 32 km. A tal da planilha mandava mais uma vez. Eu e Barbato traçamos um percurso no Lago Sul e colocamos no Facebook, na tentativa de angariar fiéis (e loucos) seguidores. Nessa hora, qualquer companhia é valiosa. Mas, para nossa felicidade, não foram quaisquer companhias que apareceram. Chris, Simone, Carla, Lia, Jaime e Ana Cláudia, nossos anjos protetores enviados por Deus. A proposta era correr da QI15 até a Base Aérea, o que dava 16 km certinho.

Dessa vez foi o Barbato quem esculhambou com a nossa programação. Ele inventou uma cachaçada na sexta à noite e outra no almoço de sábado. Com isso, nosso treino foi postergado para o domingo de manhã. Mas tudo bem. Eu já tinha tido uns deslizes, não fiz qualquer reclamação truculenta. Até porque nem podia. Como já disse, quem mandava em mim até então era ele e a planilha.

Começamos o mega, ultra, super longão na companhia da Carla Carneiro e da Lia, que foi pilotando e levando água e isotônico. No caminho pegamos a Chris Reis e a Simone Cianni. Seguimos até o CNPq, onde tivemos a primeira baixa: a Carlinha. Ela já tinha falado que iria correr só uns 10 km com a gente. Só! Devo estar ficando louca! Deve ser esse treino de maratona que deixa a gente sem noção...
No entanto, a brincadeira foi ficando tão legal que a Carla, que ia se despedir da gente, resolveu ficar. Ela se uniu à Lia no apoio motorizado. Seguimos alguns quilômetros a diante, rumo a Base Aérea, quando decidimos fazer um pit stop para ir ao banheiro. Chegamos ao embarque do aeroporto e descarregamos alguns litros de xixi (se formos contabilizar o meu, o do Barbato, o da Chris e o da Simone). As anjas estavam por perto com as bebidas em mãos, não precisaríamos fazer nenhum esforço, sequer para abrir as garrafinhas. Até que, depois de passar por um tobogã, chegamos a Base Aérea. Mais uma vez o posto de hidratação correspondeu a altura. Aproveitamos também para colocar carboidrato nas veias. Com uma mescla de gel e bananada fiz a volta já pensando na QI15. Mas ainda faltavam 16 km.

O tempo foi ficando mais quente e seco, como sempre acontece no cerrado. E com isso, nosso desgaste só aumentava. Por sorte, tinha um bom percurso de descida na saída do aeroporto, onde aproveitamos para descansar um pouco as pernas. Eu já tinha percebido que o meu corpo começava a dar sinais de cansaço por volta do quilômetro 22. E dessa vez não foi diferente. Tudo pesava, do fio de cabelo da franja à ponta da unha do dedo do pé. E ainda faltavam 10 km.

Nossa segunda baixa foi a Chris. A bonitinha ficou no Gilberto Salomão, ponto de apoio estabelecido por nós. Ela pegou carona com a Carla e a Lia até o Oba Hortifruti, onde havia deixado seu carro. Seguimos os três mosqueteiros até lá, onde a Simone nos deixou. Decidimos também dar uma parada para tomar qualquer coisa, antes que fôssemos consumidos pela enorme quantidade de radicais livres que estávamos produzindo. Tivemos a grata surpresa de encontrar Jaiminho da bermuda e sua esposa Ana Cláudia. Optei por comer uma bananada, pois o gel já não me caía muito bem. Abandonei a mochila e a viseira, nessa hora tudo incomodava. Faltavam mais quatro quilômetros e eu me sentia bem mais leve sem aquela tranqueira toda. Começo a acreditar que correr maratona pelada seja a melhor coisa a fazer.

Jaime seguiu conosco correndo e combinamos como próximo ponto de apoio o Deck Brasil, na QI13. Ali eu romperia a barreira dos 30 km, um marco na minha história de corredora e futura maratonista. Com o sol feroz na moleira, precisei de mais água, mais isotônico e mais carboidrato. Minhas bananadas tinham acabado e só me restou o abominável gel. Argh! A cada deglutida vinha a ânsia de vômito. E, realmente, quase vomitei. Não sei se também tinha um componente de desidratação, mas tomei aquilo com quem toma biotônico Fontoura. Dali em diante, somente dois quilômetros me separavam do pórtico imaginário que criei na minha mente mirabolante.

Continuamos a correria e busquei uma força que não imaginara ter. Saí desembestada a correr pelo Lago Sul, deixando para trás meu parceiro e o Jaime. Só fiz isso porque sabia que o Barbato estava em boa companhia. Era papo de homem, não tinha espaço pra mim. Avistei a Ana, a Carla e a Lia e parecia que eram as 3 Marias. Nesse momento, eu já confundia estrela celeste com santa...

O Barbato chegou e me tirou do meu conforto. Eu estava descansando quando ele me lembrou de uma brincadeira de mau gosto que eu tinha feito no começo do treino: correr 32,195 km pra poder dizer que só faltavam 10 km pra completar uma maratona. E mais uma vez ele mandou em mim. E mandou mais que a dona planilha! Ressurgi das cinzas como fênix e corri infindáveis 195 metros. Parecia que o Garmim dele estava de sacanagem comigo. Depois disso, sentamos na calçada da drogaria Rosário para fazer a reposição hídrica. No isopor devidamente identificado do Jaime havia algumas latas de um líquido embelezador composto por lúpulo, malte e outros cereais desses aí que não entendo, porque não gosto de cerveja. Mas me dá uma champa, uma caipisaquê....

E pra fechar com chave de ouro, restavam apenas 22 km ritmado. Sem imprevistos, conseguimos manter a programação do último fim de semana de treinos e realizá-lo no sábado pela manhã. Desta vez, contamos com a companhia da mais nova amiga do Barbato, Josiane. A paraíba mais fala do que corre mas, verdade seja dita, ela deu a maior força pra gente. Resolvemos repetir um dos trajetos já realizados e saímos do Pontão rumo ao aeroporto, completando exatos 11 km. O retorno ao ponto inicial seria a coroação de dois longos meses de treinamento. O cansaço crônico, oriundo do esforço físico e da abdicação da vida social e familiar, se abateu sobre nossos corpos e almas.

Uma vez que não tivemos apoio motorizado desta vez, não havia isotônico disponível para hidratação. Como eu senti falta da Lia! E pra completar, os três corredores de meia tigela não levaram um puto de um centavo pra comprar um gatorade. E foi nessa hora que a Josi fez a diferença. A bichinha, que é farmacêutica e trabalha na rede Pão de Açúcar, adentrou o supermercado do Gilberto Salomão e descolou um líquido meio salgado pra gente tomar. Salvou nossa pátria. E nosso rim. Provavelmente eu entraria em insuficiência renal pré-renal dentro de poucos instantes.

Os últimos 5 quilômetros foram mais tranquilos. A sensação do dever cumprido já reluzia nos nossos semblantes e o espírito de “já ganhou” tomou conta de mim. Até que, faltando 500 metros pra chegar no Pontão, no embalo da descida, me deparei com um obstáculo gigantesco para duas pernas já pesadas e exaustas: a calçada irregular me deu uma rasteira e me derrubou, que nem o Anderson Siva faz com seus adversários. Nocaute. Fui ao chão com tudo. Para poupar os joelhos, arrisquei um golpe de MMA e escapei com um rolamento. Joguei meu quadril, ombro e mão direitos na frente. Ao me levantar, notei que havia rasgado minha calça recém-comprada, aquela que eu usaria para correr a maratona. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Encerramos nossa jornada com um brunch no Fran´s café. A partir daquele momento, o gelo era meu melhor amigo.

O domingo era de comemoração. Dois anos de aniversário do Clube de Corrida EVOLUA. Eu e meu inseparável parceiro Barbato decidimos que faríamos um trote descontraído, para participar da brincadeira. Vesti meu outro indissociável companheiro, o Leopoldo, a caráter, e fomos pra festa. Durante a corrida, senti um pouco a perna direita, que tinha sofrido com a queda do dia anterior. Mas reduzi o ritmo e consegui terminar. Tomamos café da manhã todos juntos, numa aprazível manhã dominical. Para relaxar, fiz um SUP no Lago Paranoá, dando um mergulho revigorante. Passei o resto do dia descansando no sofá, na companhia preguiçosa do meu canino roncador. E fazendo gelo.

Enfim, a tão esperada semana pré-maratona. Amanheci a segunda-feira com um baita de um hematoma no joelho, outro no ombro e outro no punho. Fiquei um pouco assustada, mas na qualidade de médica patologista que trabalha num hospital ortopédico (mas não saca nada de ortopedia), fui me acalmando. Não havia dor ou sequer limitação de movimentos. Sou safa, não há de ser nada. Somente ferimentos contusos em uma pessoa extremamente destrambelhada. E se fosse alguma coisa, só o seria depois da maratona. Nadar e morrer na praia? Isso é coisa pra tatuí.

Já não suportava mais tanto gelo. Eu quero é misturar isso com whisky! Pomada de arnica, spray de Calminex, gel de Reparil. Tentei de tudo para ver se o roxo sumia logo. Minha casa, meus pertences, meu cachorro. Tudo cheirava cânfora. Estava com medo do Leopoldo ter um pirepaque por ficar lambendo tanto troço refrescante. Mas ele não parecia ter qualquer alteração comportamental, pelo contrário, estava feliz e serelepe. Talvez isso desse algum barato...

Na terça meus ferimentos reduziram o edema e fui pro treino ordinário. Sem qualquer artralgia ou impotência funcional, corremos eu, Barbato, Graça e Merched (aquele mesmo Merched, pois eu não conheço outro) num ritmo bem leve, pra soltar a musculatura. Fui agraciada ao final do treino com um bolo de mandioca do Beto, o melhor do mundo. Treinando para uma maratona a gente pode comer qualquer coisa. Diz a lenda que a melhor parte de tudo isso é a semana pós-maratona. Você come, come, come....e volta a correr uma semana depois. O final do dia foi tranquilo, não menos congelante.

A quarta-feira foi de reencontro com a galera geriátrica da academia. Velho que se preza acorda cedo. E com eles não é diferente. Às cinco e meia da madrugada nos reunimos na sala de musculação para colocar a conversa em dia. Pesos reduzidos pra não forçar as já tão judiadas articulações e depois meia dúzia de braçadas pra relaxar. O edema tinha ido embora, mas o hematoma insistia em habitar as partes moles do meu joelho. Num rompante obssessivo-compulsivo, organizei gavetas de blusas e sapatos, preparei algumas bolsas de roupas para doar na Comunhão Espírita e fiz minha mala, que apelidei de enxoval da maratona. Fui por partes: pensei no que usaria na cabeça, tronco, pernas e pés. Exatamente nessa ordem, dispus em cima da cama viseira, óculos de sol, top, calcinha, calça de compressão, meia e tênis. Não esqueci do protetor solar, dos brincos e nem do elástico de cabelo, afinal de contas, pode não parecer, mas eu sou bem mulherzinha. Faltava a blusa, mas esta só ficaria pronta no dia seguinte.

Na quinta chegamos bem cedo ao treino, sempre eu e o Barbato. Logo no começo tivemos a desagradável notícia que nosso colega, também futuro maratonista, o Zé, tinha sofrido um acidente. Graças a Deus estava tudo bem. Um pouco abalados, iniciamos nosso trote no autódromo, agora já na companhia do Merched, e desabafamos o quanto estávamos ansiosos. Comentei que já estava acordando espontaneamente por volta de 4 horas da manhã, como se meu relógio biológico já estivesse pronto para a empreitada de domingo. Pra minha surpresa, o Barbato falou que o mesmo estava acontecendo com ele. Pensei comigo: isso é a materialização do que chamamos sintonia. Ou seria um sintoma pré-maratona? Eu precisaria aumentar minha amostragem para poder tirar alguma conclusão deste científico teorema maratonístico. Mas minha objetividade esbravejou: você tem mais o que fazer! Peguei minha blusa personalizada e fui embora ao som de boa sorte. Tinha programado fazer unha ao final do dia, mas apareceram duas reuniões de trabalho à tarde e tive de desmarcar o compromisso. Como meus pais me ensinaram, primeiro a obrigação, depois a diversão.

Ao longo da semana vinha sentindo um pequeno desconforto na garganta, mas não me preocupei muito com isso. Segui minha rotina de trabalho e de treinos. Até que na sexta-feira, faltando 2 dias pra corrida, fui soar o nariz pela manhã e sai uma pelota de catarro amarelado. Puta merda! Vou gripar logo agora? Todo mundo na casa da minha outra irmã, a Cinthia, tinha tido uma virose há poucos dias. Só pode ser isso. O vírus passou pelo telefone. Lavei bastante as narinas com soro fisiológico e logo começou a jorrar uma cachoeira pelo meu nariz. Talvez aquela quantidade de cânfora que vinha inalando por conta do joelho também fizesse algum efeito. Eu contava com tudo isso para melhorar logo. Peguei uma carona para o aeroporto com a Pati e o Célio, amigos fiéis e participativos. Eles me deixaram por lá faltando cerca de 45 minutos para a partida.

Não sei porque cargas d´água minha passagem havia sido alterada e o check in ficou bloqueado, só sendo possível realizá-lo diretamente no guichê. Ao entregar meu documento, o rapaz me dá a notícia que meu voo estava com overbooking e que se eu quisesse embarcar para o Rio teria de ser naquele instante, com mudança de aeroporto, o que significava ir para o Galeão. Já vivi de um tudo em se tratando de transtornos com companhias aéreas. Pasmem, até avião com pneu furado já presenciei. Não tive tempo para pensar na tal proposta e mais que depressa pedi que fizesse a alteração. Eu tinha é que chegar no Rio. Saí correndo feita louca, esbaforida pelo aeroporto, escutando meu nome no alto falante. Ao adentrar o avião, quem eu encontro? Ele mesmo, o Barbato. Mais uma vez, o destino colocou o Ricardo no meu caminho. Caso você se pergunte se as poltronas eram do lado, respondo logo que não. Era coincidência demais pra ser verdade. Chegamos ao Rio e não havia “finger” no Galeão para a aeronave estacionar. Muito menos escada. E menos ainda ônibus da Infraero para nos retirar de lá. Ficamos aguardando por 40 minutos dentro do avião que, de tão confuso, mais parecia um ônibus voador. Para completar, a Ponte Rio-Niterói estava engarrafada dos acessos ao vão central, em plena 11 horas da noite. Ai que saudade que estava disso....

O sábado amanheceu ensolarado. Desde cedo, Felipe, meu sobrinho e afilhado, estava excitado para participar da festa da família, evento que a escolinha dele resolveu fazer para comemorar o dia dos pais, das mães, dos padrastos, das madrastas, das babás...enfim, a família está mudando, né... Fui pra lá e ali minha maratona começou. Brinca quadrilha, pula corda, chuta bola. Até o tal do kuduro eu dancei. Ufa! Isso é pior que correr 100 km. À tarde, peguei a Chris no aeroporto e fomos retirar o kit da corrida. Ao chegar no MAM, a fila fazia volta. Pensei: vamos levar mais tempo aqui que correndo. Mas até que andou rápido e em uma hora estávamos com tudo em mãos. Almoçamos com o povo da EVOLUA e ficamos batendo perna nas lojinhas de Ipanema. Decidimos não ficar muito tempo. Mulher ansiosa é uma desgraça, pode cometer uma tragédia com o cartão de crédito. Recebemos o convite da Simone e fomos pousar lá na casa dela, no final de Ipanema, mais precisamente na Praça de Espanha. Se você não sabe aonde fica esse lugar em Ipanema, não fique triste. Todos descobrimos no sábado à noite. Inclusive a Simone. Saímos para jantar e voltamos cedo. Coloquei o relógio pra despertar às 4 e meia da madrugada e, surpreendentemente, adormeci antes da novela das nove terminar. Nem parecia que estava ansiosa.

Chegou o grande dia. Acordei antes do despertador, igualzinho eu fazia nas excursões do colégio. Às quatro e quinze fui para o banheiro trocar de roupa. Meia de compressão, calça de compressão. Tudo estava comprimido, praticamente esmagado, inclusive meu estômago. Aquele embrulho todo só me permitiu comer uma banana no desjejum. Programei de levar o restante do lanche e comer mais perto da largada, senão ia ficar com fome. A galera da casa, Chris, Simone e Val, acordaram logo depois de mim. Em seguida, chegou a Jana pra tomar café com a gente. Foi ela a mensageira do demônio, nos alertando da chuva que caía lá fora. Mas que saco! Esses meteorologistas nunca dão uma dentro na previsão do tempo. Logo no dia da minha primeira maratona não é que os manés acertaram? Como todos ali iriam correr a meia maratona, partiram mais cedo, pois a largada era antes. Fiquei por último, sozinha, me concentrando para o que estava por vir. Fomos de táxi eu, a Cintia, o Fábio e o Brigadeiro. Este último eu conheci há pouco e não faço a menor idéia da origem de seu apelido, muito menos seu nome. Limitava-me a chamá-lo pelo nome do docinho ou patente. Sei lá. O taxista que nos conduziu até a Praia da Macumba falava mais que a Josiane, amiga do Barbato. Ave Maria! A maratona nem tinha começado e já estávamos exaustos. Na altura de São Conrado o trânsito estava praticamente parado. Carros, vans e ônibus da organização causavam uma grande confusão. O motorista, carioca malandro, deu a sugestão de ir pela estrada do Joá. Bola dentro do matraqueiro. Eu disse prontamente: mete pra lá agora motora, senão a gente só chega pra maratona de 2013. O longo caminho até o Recreio já era uma prévia do que nos aguardava. Enquanto isso, o Forrest Gump dos amarelinhos narrava histórias da cidade maravilhosa e da vida dele.

Chegamos à Praça do Pontal e lá era impossível não lembrar do Tim Maia: “...do Leme ao Pontal, não há nada igual...” Alguns engraçadinhos cantarolavam essa música, fazendo questão de nos recordar do percurso. Mermão! Isso é longe pra burro de carro, imagina a pé. Encontrei o Barbatinho e nos juntamos à galera do COR-DF num bar. Ali foi a nossa concentração. Com direito a preleção e tudo. Partimos pra largada faltando uns 10 minutos. Só Santo Antônio que não é generoso comigo, porque São Pedro foi. A chuva deu uma estiada. Encontramos nossos colegas da EVOLUA e demos um abraço caloroso em cada futuro maratonista ali reunido. Eu, Zé, Christian, Merched e Kléber estávamos visivelmente emocionados. O Barbato, apesar de estar junto dos principiantes, era velho de guerra. Já estava na terceira maratona, mas não por isso com o choro menos embargado.

Começamos pela Praia da Macumba e seguimos pela Prainha e Reserva, onde começou uma chuvinha discreta, só pra refrescar. Encontramos o carinha que era referência pra quem queria correr no pace de 7’. A sintonia era tão grande que eu e o Barbato nos entendemos com o olhar. Decidimos seguir esse cara, pelo menos, até a Praia do Pepê, metade da prova. Por vezes, nos distanciávamos um pouco, ora pra mais, ora pra menos. Mas a disciplina militar do meu amigo não deixava isso acontecer por muito tempo. E eu, na qualidade de estreante, seguia rigorosamente o que ele me orientara previamente.

A primeira vez que deixei de ver o mar foi na saída da Barra. Senti falta da brisa soprando em nossos rostos enquanto subíamos o viaduto de acesso ao Jardim Oceânico. Mas isso durou pouco. Metros a frente, eu me vi no Elevado do Joá. E foi engraçado. Sempre passei por ali de carro e, agora, a maluca estava correndo sobre aquele asfalto irregular e escorregadio. Provavelmente, eu estava com os níveis séricos de adrenalina nas alturas. Parecia que tinha consumido quilos de cocaína. Já havia corrido 23 km e a sensação era a mesma de ter dado uma volta da pequena no parque da cidade, trotando. Eu estava me sentindo uma leoa. Eu era uma leoa. A imensidão do oceano sob aquele ponto de vista me deu ainda mais certeza da existência de Deus. Seja Ele o que for. Voltou a garoar e fui deixando a água da chuva lavar minh´alma.

Ao chegar à Praia de São Conrado me dei conta da roubada que tinha me metido. Ao olhar pra frente, a Niemeyer parecia o Evereste. Caralhos me fodam! A leoa virou formiga. Respirei fundo, encarei o Barbato e pensamos juntos: vumbora. E fomos. A subida foi mais tranqüila do que imaginávamos. Lá em cima, um rapaz grita: vai lá Ricardo! Caramba, o Barbato tinha ficado famoso. E eu, de quebra, também iria virar celebridade. Era o médico que tinha atendido ele no ano anterior e o reconheceu. O matador está de volta, respondeu o Barbato. Descemos em direção ao Leblon e avistei a placa de 30 km. Nessa hora minhas pernas fizeram questão de me lembrar da existência delas. Como todo mundo fala, senti o peso dos 30. Não da idade, mas sim dos quilômetros. No entanto, minha mente estava programada para correr os 42 km e 195 metros. Não havia espaço nos meus giros cerebrais senão para o pórtico de chegada. Eu sonhava com ele há 2 meses. Comentei com o Barbato que, a partir daquela hora, eu iria correndo até o Senegal. O tal do entrar no automático era verdade.

A chuva, que tinha dado uma trégua, ressurgiu com força total. Os pingos grossos batiam nas nossas costas e as rajadas de vento a 300 mil km/hora tornaram a brincadeira ainda mais emocionante. Pegamos um dilúvio em Ipanema e eu, alucinando sob efeito da adrenalina, imaginava até a arca de Noé atracada ali no posto 9. Não, eu não tinha a pretenção de ser salva. Meu destino era mesmo correr até o Aterro do Flamengo.

E pela segunda vez, nos distanciamos do mar. A virada de Ipanema para Copacabana foi rápida. Logo o forte nos recebia e a princesinha do mar dava o ar de sua graça. Eu não fazia idéia que aquela praia era tão grande. O “ex-Le Meridién” parecia ser lá na casa do cassete! Porém, num passe de mágica, ele foi se aproximando e, de novo, a Rua Princesa Isabel escondeu o mar da gente. Passou o Rio Sul e pela primeira vez na vida eu não pensei em fazer compras ali. Eu queria chegar logo! Cruzamos a Rua Lauro Müller para acessar Botafogo pelo túnel. Achei divertido passar a pé em túneis. Me lembrou a época em que gastávamos o dinheiro da passagem com balas e voltávamos do colégio pra casa a pé.

A chegada a Botafogo foi a última injeção de adrenalina nas veias. O cansaço transformou-se numa energia voraz e radiante. O Pão de Açúcar e o Morro da Urca eram testemunhas da minha maior vitória enquanto corredora. Um misto de sentimentos se apodereou de mim com a virada da curva: realização, superação, abdicação, parceria. Em outro momento de extrema euforia, a minha formatura, o pai de uma amiga disse que, ao sorrir, eu parecia ter 64 dentes. E deve ser verdade. Explodi num sorriso que não cabia na minha enorme boca e fui batendo palmas para mim mesma e para todos que por ali estavam. Amigos, família, companheiros corredores, curiosos. Absolutamente todos eram dignos de aplausos, mereciam partilhar um pouco da imensa felicidade que transbordava de mim. Até que chegou o pórtico e com ele encerramos, eu e Barbato, nossa jornada com um dos abraços mais emocionantes dos últimos tempos.

Comentários

  1. Uau! Que depoimento emocionante! Parabéns a ela que conseguiu esse feito!
    Beijo,
    Ana Paula.

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  2. Emocionante o trecho que ela fala "A imensidão do oceano sob aquele ponto de vista me deu ainda mais certeza da existência de Deus."

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