Relato de um Ironman

Por Milton Bender Jr

Meu primeiro Ironman

Após um contato virtual por meio dos respectivos blogs, meu - 20 semanas - um (quase) diário do antes e depois de um Ironman - e dela - Dani Corredora - e redes sociais eis que descubro que a "Dani Corredora" é minha colega de profissão e de empresa (ela em Brasília e eu em Curitiba). Trabalhando na mesma empresa acabamos conversando um pouco mais até que ela gentilmente me convidou para escrever um post sobre o Ironman 2013, prova que fiz pela primeira vez em maio. Para quem não conhece, o Ironman é uma prova de longas distâncias, composta de 3,8 Km de natação, 180 Km de ciclismo e 42 Km de corrida. Até 2013 a única prova no Brasil ocorria em Jurerê Internacional, uma praia de Florianópolis, inciando-se 7hs da manhã, tendo que ser concluída no máximo até a meia noite, ou seja, com no máximo 17hs. A partir de 2014 teremos no Brasil também o Ironman em Fortaleza.

É um pouco difícil ser breve falando dessa prova e de todo meu envolvimento com ela. No meu blog acho que fiz pelo menos umas três ou quatro postagens depois da prova, de uma certa forma dividindo por "assunto". Aqui vou tentar resumir/mesclar tudo em um post só que, já adianto, não será tão breve.

Inicialmente, para quem não me conhece, entre 1996 e 2006 fui uma pessoa 100% sedentária e com nenhum cuidado na alimentação, aliás péssimos hábitos. Nesse período saí de 69kg para 98Kg de peso. A partir daí decidi que queria mudar meus hábitos e minha vida. Comecei com reeducação alimentar e depois de alguns meses - e 18Kg a menos - comecei as atividades na academia. Em seguida comecei a trotar e a fazer pequenas corridas. Disso evoluí para provas de rua (entre 5Km e 10Km) quando então havia perdido 28Kg no total. O ano de 2010 teve uma pausa longa e forçada nas atividades físicas em função de uma cirurgia ortognática a qual me submeti. Em 2011 retomei as corridas e voltei também para a natação (havia feito muito tempo atrás). Final desse ano, incentivado por um amigo, comprei minha primeira bicicleta de estrada e daí para o triathlon foi uma questão de (muito pouco) tempo. Em abril de 2012 fiz meu primeiro triathlon curto (750m corrida / 20Km ciclismo / 5Km corrida) e logo em seguida - em maio - fui assistir alguns amigos competirem no Ironman Brasil 2012. Ao ver e me emocionar com aquela prova eu decidi que me inscreveria para a edição de 2013. Tinha um ano para treinar. Entrei para uma assessoria (Webtreino) e fiz mais duas provas de triathlon em 2012 (mais um curto e um Olímpico - 1,5Km/40Km/10Km). Foi o ano para fazer uma pequena base nesse esporte fascinante e desafiador. Uma semana após a prova de 2012 as inscrições para 2013 foram abertas e encerradas em menos de 15 minutos. Eu estava dentro e pouco tempo depois sabia que era o número 170. Dali em diante era treinar e treinar, afinal a meta já estava traçada. Completar o Ironman Brasil 2013.

Entre janeiro e maio de 2013 foram vinte semanas de treinamento específico somente para o Ironman. A minha rotina básica era mais ou menos a seguinte:
  • 2as - natação e corrida (geralmente regenerativa, o "descanso" da semana)
  • 3as - ciclismo (casa)
  • 4as - natação e corrida (geralmente o treino longo e mais importante)
  • 5as - ciclismo (casa)
  • 6as - natação e corrida
  • sábados - transição ciclismo/corrida
  • domingos - ciclismo estrada (treino longo e mais importante)
Quem quiser mais detalhes pode ver o histórico completo semana a semana aqui. Os treinos foram ficando cada vez maiores e com mais volume e a ideia do Ironman foi amadurecendo. Depois de tantos meses treinando com disciplina para um evento em especial a gente passa a perceber que, exceto por algum problema fora do convencional, não há dúvida quanto a terminar a prova. O que passamos a nos questionar é, em quanto tempo e em que condições terminaremos?

O relato da prova incia na quinta-feira. A ideia inicial era já estar em Florianópolis nesse dia, pois ocorre um treino coletivo de natação para "reconhecimento" do mar de Jurerê. Infelizmente por motivos profissionais eu não pude me deslocar na quarta à noite, somente na quinta final do dia. Por sorte a minha assessoria também faria um treino no mar com seus alunos na sexta. Fizemos também um treino bem leve de ciclismo para conferir a bike e o local. Sábado era o dia do bike check-in. Neste momento deixamos a bicicleta junto com as sacolas de prova junto da organização. Tudo que vai ser utilizado tem que estar nas sacolas, pois no domingo pela manhã elas estarão na tenda de troca e a bike estará no lugar reservado para mim. A organização de todo esse processo é impecável, não tive um problema sequer. Aliás aqui cabe fazer um adendo. A organização da prova é toda impecável. Estrutura, sinalização, alimentação, hidratação, tudo absolutamente perfeito.

Domingo pela manhã

Acordei por volta de 4:15hs e já fui logo conferindo o restante das sacolas (special needs, essas levamos somente no dia da prova) para depois tomar o café e fazer as necessidades fisiológicas. Ao abrir a porta de casa (fica na Av. Búzios, local de chegada do Ironman) aí sim caiu a ficha de onde eu estava. Era noite, frio e o que seria um deserto absoluto na rua se transformou numa madrugada tumultuada. Havia congestionamento de carros, muitas pessoas caminhando numa mesma direção. Ali sim eu me vi no Ironman. Ali eu entrei definitivamente no clima da largada. Fui para área de transição com minha esposa e familiares e lá entrei para arrumar minhas coisas no meio daquele bando de bicicletas e triatletas. 


Natação

Sair para nadar numa faixa de mar com outras duas mil e poucas pessoas não é fácil. Acabei não me posicionando da melhor maneira possível e comecei a nadar um pouco mais rápido que vários atletas na minha frente, porém não conseguia passar pelo grande volume de gente, o que me atrapalhou um pouco. Sobram braços e pernas para todo o lado e as pancadas são inevitáveis. Depois que foi separando mais todo mundo aí consegui encaixar um ritmo mais legal e assim foi. A navegação no sentido praia-bóia foi boa mas acho que no sentido bóia-praia eu poderia ter ido um pouco melhor. Na passagem da praia (mais ou menos metade do trajeto) nem quis olhar o Garmin para não me me sentir pressionado pelo tempo. Tomei um pouco d'água e fui de novo para o mar para a segunda bóia. Ao chegar na areia e passar pelo pórtico da transição o cronômetro marcava uma hora e três minutos. Eu pensava em nadar em uma hora e quinze ou uma hora e vinte. Aquilo me deixou animado para o restante da prova.



Ciclismo

Depois de receber os primeiros incentivos do pessoal da Webtreino durante a transição natação-ciclismo foi hora de iniciar essa parte da prova. O início estava sendo relativamente fácil e lembrei muito do que um dos treinadores da Webtreino comentou na palestra que tivemos durante os preparativos: "O Ironman começa mesmo depois dos primeiros 90Km do ciclismo". Dentro da meta do meu treinador (11hs 10') a ideia era fazer o ciclismo com 31kph de média. Procurei ser conservador e manter uma média mais ou menos nessa faixa para não pagar o preço na maratona. A primeira volta de 90Km acabou saindo um pouco mais rápida mas sabia que na segunda teria mais vento, como de fato teve, e ficaria um pouco abaixo. Terminei o ciclismo com 31kph de média em pouco mais de 5h 47'. A alimentação saiu exatamente conforme a indicação da nutricionista, sem percalços. Nos últimos 10Km do ciclismo parti para uma "refeição" mais calórica para dar um "apoio" na maratona (o melhor bolo Ana Maria de bolso que comi na minha vida). 



Corrida 

Depois do ciclismo, mesmo que conservador, era hora de pensar na maratona. Meu maior receio era saber como estaria meu corpo nesse momento. Correr uma maratona por si só já é difícil. Corrê-la depois de nadar 3,8Km e pedalar 180Km era uma incógnita. Saí para a corrida com bastante ânimo porque ainda me sentia bem fisicamente (cansado claro, mas muito bem). Na corrida também seria onde eu conseguiria ter o maior apoio da minha família, esposa e amigos, pois passaria em frente à nossa casa por várias vezes. Comecei bastante empolgado e quando olhei o Garmin o pace estava em 5'07". Procurei segurar o ritmo porque era muito forte. Aos poucos o pace foi se ajustando perto dos 5'30" que era a ideia que meu treinador tinha me passado. A primeira volta de 21Km fiz me sentindo realmente bem, sem maiores problemas. Segurei o ritmo e nas fortes subidas de um local chamado de Canajurê - entre as praias de Jurerê e Canasvieiras - optei por não caminhar, trotando bem devagar mas não caminhar porque acho ruim voltar a correr depois de caminhar. Depois dos 21Km o cansaço começa a aumentar significativamente mas por outro lado a gente se dá conta do tanto de distância que já ficou para trás. A cada passada pela Av. Búzios a empolgação aumentava de ver tanta gente e, em especial a minha grande torcida concentrada na frente de casa. Ao passar por ali para iniciar a terceira e última volta vi meu treinador chegando na prova dele. Foi estimulante ver o esforço físico que ele fez para chegar abaixo das 10hs naquele final. Aquilo me deu um gás para fechar os últimos 10,5Km da última volta. Na metade dessa última volta começou a anoitecer mas o bairro ainda continuava cheio de gente. Neste momento eu comecei a tentar acelerar um pouco para chegar ao final, pois eu via que estava prestes a me tornar realmente um Ironman. Faltando menos de um quilômetro para o fim encontrei alguns amigos da Webtreino que foram comigo até quase o funil de chegada gritando, incentivando e elogiando. O que eles fizeram foi incrível porque me deram um gás que eu não sabia que tinha naquele momento. Logo depois que me "largaram" falando para eu manter aquele ritmo e curtir a chegada eu vi minha família e minha esposa, eu corri demais para tentar chegar abaixo das 11hs mas bati na trave fechando em onze horas e um minuto. Na hora até chegou a dar uma ponta de frustração mas depois eu vi que aquilo não faria sentido e eu não deveria me cobrar mais do que eu consegui, afinal eu treinei muito disciplinadamente e foi aquilo que pude tirar do meu corpo naquele momento. Além de tudo, pelo fato de ser a minha primeira prova longa eu tive certos receios em relação às transições (não esquecer nada, cuidar com equipamentos, etc.) e também com a etapa do ciclismo para não chegar quebrado na corrida. Depois disso percebi que tinha sido uma grande prova e que já estava além dos meus objetivos iniciais.


Só posso resumir a prova e as sensações que tive em uma palavra: incrível. Foi um dia de sonho para jamais esquecer. 


Posso dizer que entre janeiro e maio eu treinei, mas treinei MUITO. Os treinos eram (e são desde então) um compromisso e um prazer para mim. Ao longo dos cinco meses de treinos específicos eu, mesmo sem perceber, fui me tornando não um Ironman, não acho que uma pessoa que faz a prova merece um "título vitalício" assim, mas alguém capaz de encarar aquele desafio e provar para si mesmo que com a disciplina e dedicação necessárias era possível. As distâncias foram ficando cada vez maiores, os esforços cada vez mais intensos e a data se aproximando. Com um apoio incondicional da minha esposa e da minha família, no dia 26 de maio de 2013 eu venci esse desafio. Na hora que eu fui para a praia estava sozinho. Eu caminhava sozinho pela areia. Olhei para o mar, ainda era noite, o sol muito timidamente ainda repousava atrás do morro. Meus olhos encheram d'água. Eu pensei: "É meu amigo...   eu quis muito isso aqui. Agora é a hora de me divertir e, acima de tudo, mostrar para mim mesmo que eu estava certo em sair da inércia em que eu fiquei por muitos anos. Agora eu sou um atleta". Nessa hora entrei na água para me aquecer um pouco e fui para meu local de largada. A felicidade com que competi naquele domingo foi algo incrível. Muitos brincaram comigo que eu ganhei o título de atleta mais feliz do Ironman. A felicidade não era simplesmente por estar em Jurerê Internacional, por estar perto da minha família e amigos. A felicidade era porque eu me senti capaz de algo que poucos anos antes parecia humanamente impossível para mim. A felicidade era porque eu efetivamente me tornara um vencedor antes mesmo de entrar naquele mar junto de mais de 2000 atletas.

Agradeço à Dani pelo convite de escrever aqui no blog dela. Tentei mesclar um pouco dos posts que fiz sobre o Ironman para passar tudo que senti naquele momento. Peço desculpas pelo tamanho que ficou.

Valeu Dani, estarei aguardando um post teu no meu blog também! ;-)

Comentários

  1. Dani, obrigado pelo convite. Foi um prazer escrever aqui para o Dani Corredora.
    Bjs
    Milton - Blog Vinte Semanas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Imagina, colega! Esse espaço é dedicado a todos nós atletas amadores, e aos profissionais também (por que não?) contarem suas histórias de superação!

      Excluir
  2. Ô loco! O cara é de ferro mesmo!

    ResponderExcluir
  3. Fazer qualquer esporte que te dê prazer é maravilhoso, só sabe (e entende) quem pratica, no meu caso é a corrida que me dá essa sensação, não dá pra explicar o que se sente (pelo menos o que eu sinto!) quando terminamos uma prova, qualquer que seja... Meu "ironmam" é a meia maratona, já acho incrível poder viver essa experiência (já fiz 6x e pretendo fazer muitas outras)... Ainda mais que na maioria delas tenho uma companheira muito especial ao meu lado, né Dani?!?!
    Um ironman então, deve ser incrível!!!
    Parabéns, Milton!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A gente se ajuda, né, amiga?! Aí as coisas ficam mais fáceis!
      Que venham mais meias pra gente correr juntas!!!

      Excluir
  4. Dani,

    muito bacana a história do seu amigo Ironman!

    Abraço,
    Marcos.

    ResponderExcluir
  5. Dá até vontade de participar de uma competição dessas, de tão emocionante que é o relato!
    Parabéns, Milton, pela conquista!
    Parabéns, Dani, por abrir espaço para essas histórias legais.

    Abraço,
    Greice.

    ResponderExcluir
  6. Oi, Dani e Milton.
    Eu me arrepio toda vez que leio o relato do iron. Acho simplesmente demais quem faz esta prova. São grandes heróis. Meu respeito e total admiração.
    abraços
    Helena
    Blog Correndo de bem com a vida
    @Correndodebem

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Helena!
      Também me emociono muito com essas histórias! Conheço poucas pessoas que já fizeram um Ironman e admiro demais!
      Beijo,
      Dani.

      Excluir
  7. Oi Dani,
    dizer que o relato foi emocionante é pouco, fiquei sem palavras, e olha que não sou atleta de corrida, muito menos de triatlo, mas quem gosta de esporte se emociona mesmo! Parabéns ao seu colega.

    Bjs,
    Camila.

    ResponderExcluir
  8. Dani. Muito obrigado pelo convite de novo. E muito obrigado a quem leu. Fico feliz que eu consegui passar um pouco da emoção que senti. Obrigado mesmo.
    Milton

    ResponderExcluir
  9. Dani, que boa ideia a sua de abrir esse espaço para outros atletas!
    Parabéns a você pela atitude e pelo seu colega que conquistou esse desafio!

    Bjs,
    Ana Paula.

    ResponderExcluir
  10. Dani, fiquei feliz em saber que é uma prova com somente uma subida. Este ano ainda não me preparei para enfrentar os morros e fico com receio quando a prova é repleta de altos e baixos.
    Não sei como será minha performance depois da ultra, vou de fato analisar isso depois deste domingo. Mas espero fazer um tempo melhor do que a Etapa de Porto Alegre, esse é o meu desejo.

    Gostei do seu blog, já estou seguindo por email :))))

    Estou louca para conhecer sua cidade!!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário